Vamos falar sobre assédio?

O post de hoje é um pouquinho diferente, não vai ter nada sobre autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, mas um desabafo sobre algo que não deveria estar acontecendo.

Sei que tem muita gente dando sua opinião por aí, mas acho que preciso falar também, porque quanto mais gente falar sobre isso, mas ele vai se disseminando, mais pessoas vão ler sobre o assunto e assim a coisa vai tomando outra cara.

Bem, vamos começar do começo.

Há uns dias atrás, estava rolando aquele Masterchef Kids, Junior, sei lá, de crianças, e tinha uma menina de 12 anos chamada Valentina participando.

E aí, alguns seres, porque eu não vou chamá-los de homens, começaram a compartilhar suas opiniões sobre Valentina, de uma forma nada sutil, com frases como:

“(…) não fica assim migo!! A culpa da pedofilia é dessa molecada gostosa!”

“quem nunca queria estuprar uma criança”

“pra (…) entrar no programa teve q fazer uma suruba com o fagaça e jacquian”

“sobre essa (…): se tiver consenso é pedofilia?”

“essa (…) com 14 anos vai virar aquelas secretarias de filme pornô”

“tem 12 anos acho q já aguenta fazer um filme pornô (…)”

Pois é.

Me desculpa se você, assim como eu, está quase vomitando agora.

Perdão.

E aí, depois dessa palhaçada, a história virou uma confusão só e o Think Olga, uma ONG dedicada ao emponderamento feminino (e uma luta específica dessa ONG é exatamente contra o assédio sofrido pelas mulheres), criou a hashtag #primeiroassédio.

Essa hashtag foi criada para que as mulheres pudesse ter a coragem de compartilhar o primeiro assédio que sofreram, para que elas possam colocar pra fora esse momento tão traumático em suas vidas.

Com esse movimento, um monte de mulheres foram lá e tiveram a coragem de compartilhar esses primeiros momentos dolorosos e puderam tirar esse peso de dentro delas.

E não eram só assédios mais leves, mas coisas pesadas, com familiares, amigos e pessoas íntimas envolvidas. Coisas que você nunca imagina que poderiam acontecer com uma criança de 10 anos.

E aí você fica no meio disso tudo, perplexa com a quantidade de mulheres que já sofreram algum tipo de abuso físico, emocional ou psicológico e fica sem entender como a raça humana chegou nessa situação.

E eu não vou nem entrar na conversa de Valentina ser uma criança.

Vamos ficar só no abuso contra mulheres, porque só de pensar em pedofilia, fico enjoada.

Vamos falar do fato corriqueiro que é você andando calmamente e ter que atravessar a rua, porque lá na frente tá vindo um grupo de homens meio esquisitos e você fica com medo de acontecer alguma coisa.

Vamos falar do fato de que você evitar andar sozinha à noite, porque um maluco pode aparecer de qualquer canto e fazer alguma coisa com você.

Vamos falar do fato de que você precisa trocar de roupa 10 vezes antes de sair de casa, porque você fica sempre pensando que aquela roupa vai atrair olhares que você não queria atrair e você vai ficar desconfortável com aquilo.

Vamos falar do fato que de que você não pode usar saia, short ou vestido muito curto, muito justo, muito apertado, muito decotado, porque você está pedindo para ser estuprada.

Vamos falar do fato de que, independente da roupa que você esteja usando, alguém vai passar do seu lado e vai quase quebrar o pescoço tentando ver a sua bunda e vai passar por você murmurando qualquer coisa nojenta como “gostosa”, “delícia” ou “vou te chupar toda”.

Vamos falar do fato de que se você foi praquele lugar com aquela roupa, você não tem escolha, vai ter que beijar aquele cara nojento, porque né, você tá querendo.

Vamos falar do fato de que, de tempos em tempos, você se sente um pedacinho de carne.

Vamos falar do fato de que, muitas vezes, você anda de cabeça abaixada, meio envergonhada, porque você tem o peito grande, a bunda grande, a perna grande, que não podia ter, porque está chamando atenção.

Essas são algumas situação que, acredito, TODAS as mulheres já passaram, seja você branca, negra, amarela, roxa ou azul, rica ou pobre, magra ou gorda, arrumada ou desarrumada, bonita ou feia.

E o pior de tudo, é que existem homens que acham que você devia ficar feliz porque ele está te chamando de gostosa e querendo te beijar, te apalpar, te agarrar, porque ele está te querendo, te desejando.

Que você devia ficar feliz com isso porque você é gorda, feia, peluda e esquisita, então quando um homem de assedia, você devia gostar disso, porque né, de que outra forma você vai conseguir um homem?

Vamos colocar alguns limites aqui, né, pra ver se a galera entende:

  • Nós podemos sair com a roupa que quisermos, saia, short, vestido, calça, macacão, burca. Curta, longa, justa ou folga, não importa. A gente usa a roupa que a gente quiser, porque a gente quer e não porque queremos atrair olhares de homens na rua.
  • Se a gente usar uma roupa com o intuito de atrair olhares de homens, não significa que todo e qualquer homem pode nos tocar, nos apalpar, nos beijar e nos (coloque a palavra que você preferir). Só faz isso, quem a gente quer que faça isso. Portanto, mãozinhas nos bolsos, por favor.
  • Se a gente diz que não, é não. O consenso acaba aí.
  • Ter o peito, a bunda, as pernas grandes, ser magra, gostosa e bonita, não te dá o direito de me olhar como um cachorro babando, me tocar, me apalpar, me acariciar ou qualquer outra coisa parecida. Tenho esse corpo porque quero e não pra você tocar nele.
  • Ser gorda, não ter o corpo ideal ou qualquer do gênero não te dá o direito de me olhar como um cachorro babando, me tocar, me apalpar, me acariciar ou qualquer outra coisa parecida. Sou assim porque sou assim e eu não deveria ficar feliz porque você está me desejando.
  • Eu deveria poder sair a hora que eu quiser, noite ou dia, passar por onde quiser, ruas iluminadas ou escuras, sem medo de alguém querer fazer alguma coisa comigo que não quero que ele faça.
  • Se você se acha no direito de olhar a bunda de uma mulher, falar coisas estranhas enquanto ela passa, de tocá-la enquanto ela anda, apalpar qualquer parte do seu corpo, tentar pegá-la a força ou qualquer coisa do gênero e ela disser não, então o problema é seu. Você é doente, é um criminoso. Pare de tentar colocar a culpa nas mulheres.

Era isso que eu precisava colocar pra fora. Desculpa se em alguns momentos fui um pouco grossa ou algo assim, mas esse é um assunto que me tira do sério.

Principalmente, porque o objetivo desses homens que fazem isso não é te paquerar, não é te conhecer e te namorar ou te levar pra cama, que seja.

O único objetivo deles é te constranger, te deixar envergonhada, te diminuir, te fazer sentir menos do que você é. Eles não querem nada com você, na verdade.

Eles só querem te ver encolher um pouquinho depois que ele passa.

E é esse o problema.

Pra que ele possa se sentir viril e masculino, ele precisa diminuir e enfraquecer uma mulher, fazê-la se sentir um pedacinho de carne, exposta numa vitrine.

Você se sente menos inteligente, menos poderosa, menos bonita, menos forte, menos confiante.

E é esse o problema.

Pra terminar o videozinho da Jout Jout, que já compartilhei lá no Facebook do VMC e que me deu a coragem de vir falar sobre esse assunto hoje:

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